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A edição do Portugal Air Summit de 2020 terminou sexta-feira 23 de Outubro em Ponte de Sôr. A CoViD-19 transformou-a numa edição única que todos esperamos que nunca se venha a repetir, ao mesmo tempo que fazemos votos para que a aprendizagem de improviso que fomos obrigados a fazer nos obrigue a repensar a nossa vida e as nossas actividades de forma a estarmos mais preparados se algo semelhante voltar a acontecer.

A APANT – Associação Portuguesa de Aeronaves Não Tripuladas é parceira do Portugal Air Summit desde a primeira edição em 2017 e voltou a participar nos três dias do evento, participando em três painéis técnicos sobre drones, o papel dos drones nos próximos anos (e eventuais novos papeis decorrentes da CoViD-19), a regulação e as competências das pessoas envolvidas no setor.

O que define o carácter transformacional de qualquer inovação tecnológica é a capacidade de dar origem a novas actividades. É uma característica dos humanos, sobretudo dos humanos criativos: desde o momento em que se põe uma nova ferramenta nas mãos das pessoas, elas inventam novas aplicações para essa ferramenta. O que acontece quando se põe um drone nas mãos de uma equipa especializada em espectáculos pirotécnicos? Elas inventam espectáculos luminosos com drones. Foi assim que surgiu a Drones & Co. e foi o tema da primeira conversa que tive o gosto de participar com o seu mentor Vítor Machado que explicou a história de uma atividade – os espetáculos coreografados com drones – que nasceu há menos de cinco anos.

Uma das dificuldades identificadas nesta atividade nascente, e em todas as atividades relacionadas com aeronaves não tripuladas é a incompletude do edifício regulatório e de formação de pessoal qualificado.

Esse foi o tema da segunda apresentação em que participaram remotamente Natale Di Rubbo e Ken Engelstad da EASA. O primeiro apresentou o futuro imediato da regulação europeia, prevendo-se que em 2021 já seja visível a regulação de todas as categorias de drones civis: neste momento já há regulação para as categorias aberta (“open”) e específica (“specific”) e prevê-se que a proposta de regulação para a categoria mais exigente, certificada (“certified”) surja em meados de 2021. Ken Engelstad apresentou o futuro um pouco mais à frente, com a necessidade de criar um novo quadro de referência para a gestão do espaço aéreo para os volumes de espaço aéreo não controlado e articulá-lo com o espaço aéreo controlado que é hoje gerido pela entidade de serviços de navegação aérea.

Last but not least, toda a atividade da aviação se baseia em pessoas e pessoas extremamente qualificadas. As qualificações em aviação são singulares em termos da exigência mas sobretudo na necessidade da recorrência ao longo da vida: um profissional de aviação está sempre a ser atualizado e ver revalidada periodicamente as suas competências profissionais. Se a CoViD-19 obriga a suspender ou reduzir o nível de atividade da aviação, e há poucos setores que tenham sofrido reduções tão fortes de atividade, é de particular importância que as pessoas qualificadas sejam capazes de manter as suas competências e adaptá-las aos futuros contextos profissionais da aviação. Há alguns sub-setores que podem sair beneficiados da necessidade de minimizar contatos diretos – e o uso de drones para entregas é uma ideia óbvia – mas a maioria dos setores vai passar de um ambiente de escassez de oferta de pessoas para a escassez da procura.

Essa preocupação é central ao projeto europeu Skill-Up (https://www.skillup-air.eu/) cujo nome completo é skilling, Re-skilling and Upskilling, ou seja forma, formar noutras atividades e aprofundar a formação de quatro classes exemplares da aviação para as preparar para ambiente profissional em 2030: pilotos, profissionais aeroportuários, controladores de tráfego e pilotos de drones.

A APANT é parceira neste projecto e participou na apresentação do projeto num diálogo com os outros parceiros portugueses, com destaque para a QSR consulting. O projeto foi desenhado na era pré-Covid, foi lançado em Janeiro de 2020, termina em Dezembro de 2022 e terá de se mostrar capaz de usar as competências que propõe aos profissionais da aviação para saber adaptar-se e responder às alterações do ambiente económico e social decorrentes da pandemia até ao horizonte de 2030.

Numa nota final, o ambiente foi muito diferente: não tivemos aviões a cruzar os céus, mas tivemos cruzamentos de ideias e propostas para sair deste nevoeiro, não tivemos corridas de aviões mas tivemos histórias de pessoas e organizações que correm contra o tempo para salvar o que é essencial e definidor de cada empresa e de cada equipa. Não queríamos ficar reféns da CoViD-19 mas não conseguimos escondê-lo em nenhum tema. A agência espacial Portugal Space trouxe-nos um pouco dessa esperança ao associar um concurso internacional de lançamento de foguetes projectados por equipas de estudantes. É uma boa maneira de sairmos a olhar com optimismo para o céu.

Dizem os ingleses que “even the darkest cloud has a silver lining”, nós, membros da APANT no Portugal Air Summit saímos de Ponte de Sor sabendo que mesmo a mais dura CoViD-19 será seguida de um arco-íris.

Ponte de Sor, 23 de Outubro de 2020.

Engº. João Gomes Mota, Administrador Albatroz Engenharia
Membro Direção APANT

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