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Humildade, empenho, colaboração e espanto são nomes que não ocorrem imediatamente quando se pensa na operação e regulação de aeronaves não tripuladas. E, no entanto, foram os estados de espírito que detectei na maioria dos oradores no primeiro dia do #ICAORPAS2017.

Humildade porque os oradores têm a noção da responsabilidade e volume de trabalho à sua frente, num mundo que não espera por eles para inventar novas aplicações e sistemas. Os reguladores, frequentemente descritos como vivendo no alto das suas torres de marfim, mostram que estendem a mão à indústria e aos utilizadores numa atitude de serviço à sociedade. Vários oradores descreveram como tentaram pôr-se no lugar dos outros, para olhar os desafios sobre novos pontos de vista e daí explorarem soluções diferentes.

Empenho porque todos sabem que o volume de trabalho é avassalador (perdi a conta às vezes que ouvi “overwhelming”) e que o consenso é a forma institucional de manter o slogan da ICAO: “aviation safety: no country left behind“. É precisa flexibilidade e compromisso e ser capaz de, consoante os contextos, tirar partido da regulamentação pré-existente ou começar com princípios completamente novos. E mesmo sendo a harmonização o desejo último das partes envolvidas, é precisa flexibilidade para saber quando os arranjos parciais e regionais são o melhor caminho e quando se torna necessário trilhar caminhos diferentes,  idealmente não divergentes.

Colaboração porque, na esteira dos sentimentos de humildade e empenho, cada uma das partes reconhece que não terá capacidade de produzir os resultados esperados sem a colaboração das outras. E essa colaboração é muito clara, por exemplo, no uso que a EASA faz do material produzido pela JARUS, uma agência não-governamental, ou como a ICAO e os reguladores recorrem a universidades e outras agências para “importarem” know-how. Colaboração é o que pedem as Nações Unidas que têm de operar missões humanitárias em cenários sem regulamentação, sem segregação de tráfego aéreo, enfrentando organizações hostis, e num contexto em que esperar um dia é inaceitável.

Finalmente, espanto, porque o admirável mundo que já é visível nos nossos céus é apenas uma pálida amostra do que se adivinha, com transporte de pessoas em “táxis aéreos”, frotas de aeronaves não tripuladas colaborando numa tarefa partilhada. Como disse um dos oradores: não há nada que uma aeronave tripulada possa fazer que uma aeronave tripulada não possa vir a fazer. E há inúmeras aplicações ao alcance de aeronaves não tripuladas que ainda estão por ser sonhadas.

Subjacente a esta surpresa, está algo que felizmente é constante e forma os alicerces de todo este trabalho: a segurança é a prioridade de todos. Sendo a aviação o sector de transportes com os melhores níveis de segurança, a introdução de aeronaves não tripuladas deverá contribuir para reforçar essa condição.

Montreal, 19 de Setembro de 2017.

Engº. João Gomes Mota, Administrador Albatroz Engenharia

Membro Direção APANT